O Indiegogo brasileiro – Candice Pascoal e a Kickante

Candice Pascoal já não mora no Brasil há mais de 20 anos, mas voltou em meados de 2015 para ver como estava sua Startup, uma plataforma de crowdfunding chamada Kickante. Inspirada pelas plataformas populares de arrecadação de fundos como o Kickstarter e Indiegogo, Candice tinha grandes ambições em relação à nova empresa. “Nosso objetivo não era fazer apenas crowdfunding”, diz a empreendedora de 36 anos, “Nós queríamos capacitar brasileiros e ajudar a transformar a sociedade.”

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Quero criar um crowdfunding

Porém, antes ela teve que fazer uma transformação interna. O que ela encontrou em seu escritório de São Paulo a chocou. “Como empresa, nós estávamos muito focados em execução, garantindo que os processos estariam no lugar”, lembra ela. “No entanto, isso não era um conceito totalmente apreciado por todos.” Ela teve que dispensar quatro de seus seis funcionários na Startup e rapidamente encontrar substitutos. Uma decisão difícil, diz ela, “Mas agora a companhia está na direção certa, com as pessoas certas, e está crescendo.”

Vista área do prédio do Banespa e seus arredores na cidade de São Paulo

A Kickante é, de longe, o site crowdfunding que mais cresce no Brasil – igualmente a rápida ascensão da Indiegogo nos Estados Unidos. Em menos de dois anos já recebeu mais de 8.000 campanhas em nome dos artistas, caridades e empresários, captando um total de 14 milhões de reais a partir de 200.000 contribuidores. Essas pessoas podem oferecer tão pouco quanto 10 reais; e outros tanto quanto 250 mil reais. Expandindo em 30% ao ano mês e 1.800% em relação ao ano – a Kickante é uma história de sucesso brilhante em meio a obscura situação do Brasil.

Gráfico de comparação do crescimento da empresa Kickante e PIB do Brasil

Essa trajetória deve resultar em uma receita de US$ 4 milhões este ano, diz Candice. A empresa ainda não tem lucros, o que virá provavelmente no início do próximo ano. Seus investidores estão incentivando-a a se concentrar no crescimento de melhor qualidade e no impacto no mercado.

O caminho de Candice para o crowdfunding foi muito direto. Ela foi criada em Juazeiro da Bahia, no nordeste do Brasil. Com cinco irmãos, ela cresceu tocando piano e admirando seu pai, um médico e empresário que possuía hospitais e centros infantis gratuitos de suporte para mães que trabalham. Ele plantou uma semente filantrópica em todos os seus filhos. “No Natal, éramos responsáveis pelo entretenimento das outras crianças, fazendo apresentações de dança e dando pequenos presentes ou alimentos para centenas de pessoas”, lembra ela.

Mas Candice também tinha uma paixão pelo negócio. Depois de se formar pela Universidade de Salvador com um diploma em Negócios Internacionais e completar um estágio no World Trade Center em Nova York, ela se mudou para Paris. Passou um ano trabalhando lá para ProXchange, um mercado online para bens de empresas utilizados, com a construção do site em português para vender máquinas pesadas.
Em seguida, aos 24, se mudou para Manhattan para realizar um estágio em Putumayo World Music, uma gravadora musical. Dentro de seis meses ela se tornou chefe de vendas internacionais e marketing, abrindo escritórios na América Latina, Oceana, África e Ásia. Após cinco anos, Candice decidiu diminuir o ritmo, prestando consultoria para Putumayo, a etiqueta brasileira Biscoito Fino e IASO Records.

Candice, então, recebeu um convite para trabalhar com uma lista das maiores organizações sem fins lucrativos do mundo – Médico Sem Fronteiras, Greenpeace, Anistia Internacional, Humanitas International, Unicef, Care e outros. O convite realmente a tocou, devido ao seu envolvimento com projetos sociais em geral. Durante a próxima meia década, trabalhou na captação de recursos e desenvolvimento de programas de mala-direta para ONGs em todo o mundo. Aos poucos, isso também ficou para trás.

A empreendedora queria começar algo próprio. Enquanto cuidava da casa e de uma criança, ela lançou o Master’s Channel, um site de auto-ajuda interativa, principalmente para as mulheres. “Em sete meses, tivemos uma comunidade de 30.000 pessoas”, diz. “As pessoas nos falavam que tínhamos salvado suas vidas e estavam sempre ansiosos para o que estava por vir no canal. “Mas, apesar de algumas vendas de vídeo, o site não estava fazendo dinheiro”.

“Eu aprendi muito sobre crowdfunding”, diz ela. “Ele tem todos os elementos das minhas experiências passadas e interesses – de arrecadação de fundos, o mercado da música, startups, marketing. “Com o crowdfunding poderia levantar dinheiro para causas em que acreditava, como a caridade, as artes e empreendedorismo. Mas, muitos grupos tiveram dificuldade para obter financiamento ou o desenvolvimento de uma base de fãs que poderiam apoiá-los sempre”. Às vezes, eu encontro pessoas de instituições de caridade e eles têm que dormir no chão. Eles não têm recursos nem para investir na captação de recursos, não podiam sequer comprar o material para fazer mala direta”.

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Quero criar um crowdfunding

Ela pensou no Brasil, que é rico em recursos naturais, pessoas criativas e talentosas que não têm nenhum conhecimento quando se trata de crowdfunding. “Os primeiros sites de crowdfunding brasileiros se apresentavam como sites de esmola”, diz ela. “O problema é que as organizações no Brasil sempre esperavam receber dinheiro do governo, entidades internacionais, ou grandes empresas nacionais. Mas o mundo mudou, e eles não aprenderam a se adaptar com rapidez suficiente”. Os brasileiros são muito generosos por natureza, mas as organizações não sabem como solicitar dinheiro. “Então, nós construímos um local para criar uma cultura de doação que ainda não existia.” Esse “nós” quer dizer ela e seu irmão Diogo, 29, o outro irmão impulsionado por uma paixão pelo negócio. (Diogo se formou com um MBA da prestigiada FGV e trabalhou para o Sebrae, uma organização que apoia empreendedores.)

Candice projetou a Kickante com recursos específicos para o público brasileiro. Os doadores podem pagar à vista ou em até seis parcelas mensais. O site permite que as ONGs arrecadem fundos de duas maneiras diferentes: um plano Tudo ou Nada (onde eles só ficam com os fundos se a meta for atingida) ou uma opção Flexível (o que lhes permite ficar com qualquer quantia arrecadada). Candice também introduziu dois tipos de campanhas de crowdfunding: a tradicional; e o chamado “kick solidário”, que permite que as pessoas possam levantar fundos para uma ONG que apoiam em vez de receber presentes.

Exatamente porque muitas ONGs brasileiras, artistas e empresários não estavam familiarizados com crowdfunding, Candice projetou um sistema de suporte. A Kickante oferece análise de dados para rastrear campanhas, webinars sobre as melhores práticas, as anotações de vídeo do YouTube para ajudar campanhas a viralizar, e um plano de marketing para potenciais doadores via e-mail e redes sociais.

Ela recebeu um impulso de alguns VIPs brasileiros. Em outubro passado, a autora e empresária Bel Pesce levantou quase 1 milhão de reais para o lançamento do seu mais recente livro, estabelecendo um recorde para as campanhas de crowdfunding brasileiro. O tenista Gustavo Kuerten arrecadou 117.000 reais em nome de sua fundação, WinBelemDon, para ajudar as crianças pobres a se tornarem tenistas profissionais, e ele está agora em uma segunda campanha. A cantora de MPB Leila Pinheiro levantou 98.950 reais em abril para o lançamento de seu novo álbum. Tais campanhas bem-sucedidas dão inspiração e credibilidade para metas mais agressivas, como os estabelecidos pelo Santuário Animal, que espera arrecadar 1,2 milhões de reais e já atingiu dois terços do valor. (Atualização: a campanha Santuário Animal está encerrada e arrecadou mais de 935 mil reais, tornando-se assim o mais novo recorde de arrecadação via crowdfunding do Brasil)

A taxa administrativa da Kickante é de 10% do total captado. Mas Candice diz que é barata considerando a taxa de transação de 5% dos bancos, o apoio que ela e sua equipe dão aos criadores de campanha e o fato de que outros sites de crowdfunding cobram até 20%. A taxa de juros para um empréstimo bancário no Brasil é 14,25%.

Em dois anos a Kickante já levantou US$2milhões. Candice diz que o terceiro ano vai ajudar a expandir os negócios no Brasil.

Quais são os próximos passos da Kickante? O Brasil é um lugar grande, com uma população de mais de 200 milhões e centenas de milhões de vizinhos em toda a América Latina. Há muito espaço para crescer e Candice e sua equipe têm grandes sonhos.

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Quero criar um crowdfunding

Texto original
http://www.forbes.com/sites/joshsteimle/2015/09/03/the-indiegogo-of-braz…